“O vazio não é um mal tão perverso quanto dizem por ai. Desde que a menina saiu, tentei deixar a porta aberta. Não pus uma faixa dizendo que ela seria bem-vinda novamente, pois tinha dito que sempre ela teria lugar aqui. Mas tem os momentos que a gente perde o chão, o teto e as paredes, sai do próprio corpo largando o coração na sala, com as janelas vibrando pelo terremoto, e a porta batendo pela ventania. A gente vive fora de si, com a alma flutuando sobre as águas da vida, ancorada pelo coração partido que te deram, e que você o pôs no lugar do que era teu, e agora foi dado para alguém. A gente vive vazio porque saímos em busca do nosso coração que foi vendido a alguém que, sem a pior das intenções, não cumpriu o combinado. A porta ainda está aberta, mas já não vive mais alguém ali.
“Ele dizia que a amava, ela correspondia com as mesmas palavras, outrora a reciproca era verdadeira, porém menina moça dizia aquelas na esperança de ressuscitar a chama do amor que agora jazia em seu coração.
“– Amar é perigoso.
– Sei disso – respondi. – Já amei antes. Amar é como uma droga. No começo vem a sensação de euforia, de total entrega. Depois, no dia seguinte, você quer mais. Ainda não se viciou, mas gostou da sensação, e acha que pode mantê-la sob controle. Pensa na pessoa amada durante dois minutos e esquece por três horas.
Mas aos poucos, você se acostuma com aquela pessoa, e passa a depender completamente dela. Então pensa por três horas, e esquece por dois minutos. Se ela não está perto, você experimenta as mesmas sensações que os viciados têm quando não conseguem a droga. Neste momento, assim como os viciados roubam e se humilham para conseguir o que precisam, você está disposto a fazer qualquer coisa pelo amor.
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Paulo Coelho - Na Margem do Rio Piedra eu Sentei e Chorei (via
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